UM DIÁLOGO DISSONANTE

 

Miriam Bauab PUZZO - Unitau

 

 

É possível estabelecer um diálogo entre duas autoras tão diferentes e tão distantes no tempo quanto Cecília Meireles e Adélia Prado? Num primeiro momento a resposta seria não. Entretanto, observando o contexto social e a importância que assumem nesse contexto, bem como suas obras inaugurais Viagem e Bagagem respectivamente, percebem-se conexões que instauram um diálogo ainda que dissonante. O percurso a ser seguido para a demonstração dessa relação parte do contexto histórico de cada uma das autoras e do papel que nele desempenham para em seguida confrontar suas obras inaugurais, destacando o estilo e a proposta lírica de cada uma. Toma-se como referência a teoria de T. S. Eliot[1]de que a tradição não diz respeito somente ao passado, mas que ela se projeta em relação ao futuro. Assim, analisando a posição de Cecília Meireles, podemos dizer que sua produção poética, bem como sua atuação social avançam em direção às poetas de épocas posteriores como Adélia Prado, mantendo com ela uma relação dialógica (apesar de todas as diferenças).

Cecília Meireles inicia sua produção poética na década de vinte, representando o segundo momento modernista, quando a turbulência, provocada pelas inovações da Semana de Arte Moderna, havia diminuído e os poetas estavam mais interessados em encontrar uma solução expressiva própria que em chocar o público. Essa é a posição adotada por Cecília Meireles, pois desde o início rejeita o radicalismo poético introduzido pelos modernistas do primeiro momento, entre eles Oswald de Andrade. Alia-se ao grupo da Revista Festa, procurando conciliar tradição literária e renovação, criando um estilo próprio, cujas sutilezas inovadoras são introduzidas de modo equilibrado, muitas vezes camufladas nas imagens e na forma de um sistema poético instituído.

Lendo os poemas de Viagem, o leitor não suspeita da importância contestadora da poeta no plano social, como o demonstram seus artigos jornalísticos, só recentemente divulgados. O questionamento das leis educacionais da ditadura Vargas e da posição radical da Igreja diante de leis inovadoras tais como a do divórcio[2], reflete a consciência crítica da mulher participante desse contexto. Cecília Meireles vivencia também os momentos da campanha para a legalização do voto feminino, instituído em 1932, com o novo código eleitoral.

Reavaliando esse momento observa-se que muitas foram as barreiras que as mulheres dessa época tiveram de enfrentar para se auto-afirmarem numa sociedade que saía da estrutura paternalista rural e ingressava na era de industrialização urbana. Um novo papel social lhe estava reservado e para desempenhá-lo tornou-se premente sua independência intelectual e financeira, porque as leis regulamentadoras desse novo papel ainda estavam por fazer. Por isso, é de suma importância a participação da mulher nesse contexto de definição e legaligação de seu papel social.

Como poeta, Cecília Meireles é uma das primeiras a ser reconhecida e talvez a mais importante, embora haja muitos exemplos de mulheres escritoras desde o século XIX, como aponta Norma Telles[3]. Entretanto, nenhuma delas ganha destaque semelhante na história literária brasileira. Portanto, sua participação social é fundamental nesse momento e seu reconhecimento como escritora e poeta é exemplar. O resultado literário dessa nova posição reflete-se em seus poemas que delineiam um perfil de mulher, ainda não muito claro, matizado por uma voz indefinida que se divide entre o antigo e o moderno. Como afirma Adorno, a lírica expressa, ainda que de modo difuso, o contexto original do poeta, e é isso que se verifica na lírica ceciliana.

Embora as imagens não representem o contexto social e os temas não se refiram a ele diretamente, o conflito expresso nos poemas reflete o embate entre o lírico e o social, o individual e o coletivo. A voz da mulher contestadora, camuflada em imagens serenas dilui o grau de impacto entre texto lírico e contexto social. Observando o momento crítico de definição de papéis, tanto para o homem como para a mulher, para esta de forma muito mais dramática, é natural essa falta de segurança, plasmada nos poemas de Viagem em imagens fluidas: líquidas, aéreas, primando pela transparência. O eu-lírico se movimenta nesse ambiente sem sustentação material ou física. Existe, portanto, certa discrepância entre o papel social desempenhado pela escritora e a escrita poética.

Contudo, o conflito existencial decorrente da insegurança diante do novo papel e da ausência de modelos exemplares está de certa forma flagrado na imagem especular fragmentada, no duplo que não se reconhece e anseia pela recuperação de sua unidade.

Nos poemas cecilianos há um ensaio de transcendência da condição corpórea do eu-lírico, caracterizando um discurso de conotações andróginas, como afirma Nádia Battella Gotlib: "esta 'sensitiva tocada', que se deleita, enquanto poeta, em ser 'andrógino', vive a ambivalência, como no poema 'Dois': Meu nome agora é diverso./Indeclinável."[4], por isso privilegia o que é espírito, o que é essência, visto que o sujeito lírico não está ajustado a sua nova condição.   

A primeira ruptura consciente decorrente do conflito que o novo espaço e o novo papel social da mulher impõem parecem flagrados no contraste entre as imagens que procuram no reflexo das águas e dos espelhos reconhecer ou recuperar a unidade perdida do antigo modelo. O poema "Retrato"[5], tomado como referência para a análise, ilustra essa superposição de imagens especulares que refletem tanto o conflito individual quanto o coletivo, se transplantado para o contexto da época:

 

Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro

nem esses olhos tão vazios,

nem o lábio amargo.

 

(...)

 

Eu não dei por esta mudança,

Tão simples, tão certa, tão fácil:

– Em que espelho ficou perdida

a minha face?

 

O drama individual do sujeito lírico pode ser interpretado em níveis diversos de significação. Num primeiro nível, o mais evidente é o da mudança motivada pelo transcorrer do tempo, deixando marcas indeléveis no novo rosto que se delineia. A ingenuidade, a alegria espontânea foram recalcadas pela dor, pela amargura resultantes da  experiência vital. Num nível mais profundo, reflexo do contexto social, o drama individual pode desvelar as contradições sociais como afirma Adorno, um novo rosto vai se delineando, não mais despreocupado, alegre, mas sulcado pelas novas responsabilidades.

A duplicação do sujeito lírico na poesia ceciliana pode refletir essa diversificação dos papéis sociais ainda incipiente. O sujeito lírico nos poemas ensaia representar essa mudança, assumindo pelo menos nominalmente outra identidade, como o demonstra Nádia Battella Gotlib[6]: "Já fui loura, já fui morena,/ já fui Margarida e Beatriz./Já fui Maria e Madalena./Só não pude ser como quis."[7] Ou ainda: " Fui morena e magrinha como qualquer/ polinésia, e comia mamão e mirava a flor da goiaba."[8]

Essa tentativa de representação de outros perfis de mulher não se concretetiza totalmente visto que ela ocorre na superfície, no mascaramento dos nomes, das características físicas, ou de origem regional, centrando num modelo de ser ainda sem materialidade.

Em contraposição o eu-lírico adeliano se fragmenta numa multiplicidade de papéis, centrado num sujeito que sofre o dilaceramento dessa divisão. Assim, as outras faces que as mulheres vão ganhando incorpora-se ao texto poético pelo desdobramento  do eu-lírico. Não apenas no mascaramento, mas na vivência concreta desses novos papéis ganhando densidade, como ilustra "Licença poética": "Não sou Cornélia (...) sou mulher do povo Adélia."

O contexto social vivenciado por Adélia Prado representa um momento de sedimentação das inovações provocadas pelo desenvolvimento industrial e tecnológico. A modernização do país atinge o interior, levando também a cultura dos grandes centros a tdas as regiões do país. Verifica-se um momento de sincretismo cultural, de assimilação múltipla de todas as tendências introduzidas pelo modernismo, como o classifica Pedro Lyra em sua obra A poesia da geração 60[9]. Portanto, os poemas de Bagagem refletem as tendências poéticas modernistas, já sedimentadas por autores como Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa, autores com os quais instauram um diálogo intenso.

Enquanto os poemas cecilianos refletem de modo indireto a cultura dos grandes centros, onde a industrialização e o progresso modificaram a paisagem e os papéis sociais vigentes de modo radical, os de Adélia Prado exprimem a dispersão dessa cultura pelo interior, modificando o caráter simples e unificador dessa cultura que se reflete também no desempenho da mulher nesse contexto. Ela assume os novos papéis sem, contudo, abdicar dos anteriores, multiplicando-se em novos perfis. O espaço já havia sido aberto, não há mais necessidade de auto-afirmação, por isso é possível conciliar de modo flexível e inovador todos os modos de atuação da mulher nesse contexto, sem timidez ou insegurança, mas ao contrário, com força desfiadora. Essa é a batalha poética travada por Adélia Prado, identificada com a mulher do povo. Na desmontagem intencional da unidade do sujeito-mulher há o seu desdobramento pelo desempenho de várias funções, não mais excludentes, mas paradoxalmente integradas.

Assim, convivem, de modo até contraditório, a mulher na função de mãe, ligada às origens mais primitivas da sociedade, e as outras mulheres com funções diferenciadas conforme a circunstância social exige, com perfis diferentes e conflitantes muitas vezes.

Deste modo, do interior dos poemas emerge um discurso polifônico, fazendo convergir uma pluralidade de perfis sociais ora representados pelo sujeito lírico, ora apresentados por meio dele. Em seus poemas a teoria  de Meschonnic, contestando a concepção de Bakhtin[10] que atribui ao discurso poético o caráter monológico, torna-se palpável porque o sujeito, representado pelo pronome pessoal de primeira pessoa em literatura, não se limita a ele.[11]       

A fragmentação especular na imagem do duplo, iniciada por Cecília Meireles, ganha novos matizes na obra de Adélia Prado, não mais como lamento, como perda de identidade, mas como acréscimo. A divisão assumida por completo desvela um caráter de duelo, de batalha ganha, como se observa neste trecho do poema, "Com licença poética":

 

Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

Esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

Sem precisar mentir.

(...)

Inauguro linhagens, fundo reinos

– dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

Já minha vontade de alegria,

Sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.

 

Enquanto Cecília Meireles inaugura o papel social da poeta, atuante, contestadora, mas que sente com certa melancolia a perda da antiga identidade alegre e inocente; Adélia Prado, de modo paradoxal, assume os novos papéis sem abdicar dos anteriores, conciliando dor e alegria. Inova também ao sair de seu espaço simples e protegido para assumir novas funções desafiadoras, inclusive o da escrita. Contrapõe, assim, o rural ao urbano, o primitivo ao industrializado, deixando entrever o contexto social do interior já modificado pelo progresso.

Tanto Cecília Meireles quanto Adélia Prado têm também um referencial comum no texto bíblico. Entretanto, dão a ele um tratamento diferenciado, de modo sutil nos poemas cecilianos, e explícito nas epígrafes que introduzem os diferentes livros de Bagagem, de caráter muitas vezes transgressor, no interior dos poemas, como no seguinte trecho de "O modo poético"[12]:

 

é em sexo, morte e Deus,

que eu penso invariavelmente, todo dia.

É na presença d'Ele que eu me dispo,

E muito mais, d'Ele que não é pudico

E não se ofende com as posições no amor."

 

Ou em “Disritmia”[13]: “erótico é a alma.”

Nesse recorte reverte-se toda a convenção lírica de ser dividido entre corpo e  espírito, privilegiando ora um ora outro. O sujeito lírico é identificado com a imagem de mulher que procura conciliar o inconciliável, vivenciando o corpo no espírito ou o espírito no corpo de modo indiferenciado e paradoxal. Em oposição a essa materialidade corpórea do sujeito lírico adeliano, fragmentado e uno ao mesmo tempo, o perfil que se destaca nos poemas cecilianos é a secção no duplo corpo/espírito, de um lado a matéria perecível, de outro o espírito eterno, num sentimento melancólico de perda, de algo inalcançável, como bem caracteriza este recorte do poema "Noções":

 

Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a.

Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,

E este abandono para além da felicidade e da beleza.

 

Ó meu Deus, isto é a minha alma:

Qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,

Como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...[14]

 

Apesar de haver um referencial comum, a proposta de Cecília Meireles denota o esforço em manter o equilíbrio, pelo abandono do corpo em benefício do espírito. Há a necessidade de transcendência pela arte numa tentativa de vencer a divisão, portanto o aspecto formal é artisticamente trabalhado, fazendo convergir ainda que em versos brancos, o ritmo, as imagens, a divisão regular dos versos e estrofes. A sistematização dos recursos artísticos colaboram para esse ensaio de recuperar a unidade numa proposta harmonizadora. As novas propostas e os deslizes conscientes são sutilmente introduzidos, sem prejuízo do conjunto.

Contrapondo-se a esse projeto, os poemas adelianos expõem a fragmentação do sujeito lírico de modo paradoxal: alegre e doloroso ao mesmo tempo. A flexibilidade desse sujeito é a tônica, resultando em poemas diversificados do ponto de vista estrutural, seguindo o curso do instante inspirador. Não há nenhuma sistematização dos recursos poéticos. Em versos brancos quase prosaicos eles se organizam pela fragmentação temática e estrutural, expondo a multiplicação de faces e perfis e se integram e desintegram sem nenhuma preocupação unificadora. 

 Desse modo, as duas poetas tão distantes no tempo e no espaço instauram um diálogo dissonante, refletindo em sua riqueza expressiva as condições sociais de momentos diferenciados para as mulheres escritoras.

Cecília Meireles abre um caminho novo que aos poucos se multiplica em meandros e veredas na construção de um discurso poético que reflete a riqueza dos novos perfis, resultantes dessa aventura humana que as mulheres também vivenciam e ousam expressar.



[1] T. S. ELIOT Tradição e talento individual. In: Ensaios. São Paulo: Art Editora S. A., 1989, p.37-48.

[2] Cf. Valéria LAMEGO. A farpa na lira. Cecília Meireles na revolução de 30. Rio de Janeiro: Editora Record, 1996.

[3] Norma TELLES. Encantações. Escritoras e imaginação literária do Brasil do século XIX. PUC, São Paulo, 1987. (Tese de doutorado).

[4] Nádia Battella GOTLIB. Nem ausência nem desventura: ser poeta (A poesia de Cecília Meireles). Revista da Biblioteca de Mário de Andrade, nº 53, São Paulo, jan./dez. 1995, p.118.

[5] Cecília MEIRELES. Obra poética. 3. ed., Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 1987.

[6] Do artigo já citado em que a autora caracteriza o sujeito poético como uma espécie de fantasma de si mesmo.

[7] Do poema "Mulher no espelho". Obra poética p.272. In: opus cit. p. 118.

[8] Do poema "Desenho", Obra poética, p. 265-266. In: opus cit. p.118.

[9] Pedro LYRA. Sincretismo. A poesia da geração 60. Rio de Janeiro: Topbooks,1995.

[10] Mikhail BAKHTIN. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

[11] "Pour une critique du monologisme poétique, le sujet, en littérature, ne se reduit pas à l'emploi du pronom personnel de la primière personne." Henri MESCHONNIC. La rime et la vie, Lagresse, Verdier, 1990, p. 225-256.

[12] Adélia PRADO. Bagagem, p.77.

[13]Idem, Ibidem, p.57.

[14] Cecília MEIRELES. Viagem. In: opus cit., p. 109.